A ira da vida

O Manuel era um jovem bem-disposto, sociável e realizava atividades próprias para a sua idade. No seu dia-a-dia era dinâmico, responsável e criativo, tirou o curso de estilista e tinha acabado de abrir a sua própria loja de roupa com o seu melhor amigo, com quem partilhava tudo. Aos 21 anos, a morte da sua mãe fez tremer toda a estrutura familiar, e o ambiente desse doce lar piorou após a saída da sua irmã mais velha de casa. As relações com o pai tornaram-se mais difíceis, dia após dia, pois a dor da perda da mãe fê-lo mergulhar no consumo de álcool. Uns dias depois, o pai descobriu que o rapaz que tanto frequentava a sua casa com o seu filho, afinal era seu namorado. A relação entre pai e filho foi-se agravando, resultando em agressões físicas e psicológicas da parte do mesmo. Incompreendido, insistia ferozmente para que terminasse essa “estupidez” com o outro e para “se tornar um Homem” de uma vez por todas. O pai decide ir falar com o companheiro e ameaça-o de morte, caso volte a aproximar-se do seu filho. Perante uma situação tão complicada, o Manuel começou a isolar-se e a perder-se também nos seus projetos, perdendo assim a sua loja e os seus amigos. Passaram-se dias e o Manuel não queria sair do seu quarto, ele dizia que a vida já não fazia sentido, chorava a toda a hora e não queria ver ninguém, muito menos o pai, pois mantinha a sua ira e estava sempre a insultá-lo. Numa noite, o Manuel ouve uma voz abafada e sufocante a pedir ajuda e acorda exaltado. Após noites consecutivas, a mesma voz atormenta-o, ele associa-a à voz da sua mãe. Decide então ligar à sua irmã, relatando-lhe o ocorrido e dizendo-lhe que achava que a mãe não estava em paz. As vozes na mente de Manuel passaram a generalizar-se e a fazerem eco durante o dia e a noite e cada vez mais persistentes e ruidosas. Certo dia, Manuel começa a ter visões com a sua mãe. Assustado, liga novamente à irmã e conta-lhe o sucedido. A irmã tenta acalmá-lo e diz-lhe que em breve lhe faria uma visita, não querendo preocupá-lo mais. As visões e as vozes continuaram a invadi-lo e Manuel começa a falar com a sua mãe sobre tudo o que estava a acontecer na sua vida. Estas visões começaram a ser constantes, as conversas duravam horas e até nas horas da refeição à frente do seu pai, Manuel conversava com a mãe. Parecia que vivia num mundo só dele, conversando como se esta estivesse bem presente entre eles. O pai voltava a insultá-lo, chamando-o de “atrasado mental”, batia-lhe e exigia que não voltasse a falar damãe. O Manuel revoltava-se e atirava com tudo o que via para o chão. Saiu de casa para ir ter com o seu amigo para encontrar algum apoio, mas este não o acolhe como ele esperava. Certo dia, a irmã vai visitá-lo e, aparecendo de surpresa em casa, surpreende-o a falar sozinho. Após analisar o seu discurso, apercebe-se de que ele está a imaginar uma conversa com a mãe e fica ela assustada, perguntando-lhe o porquê de estar a falar sozinho. Ele responde-lhe que estavam a comentar um programa televisivo. A irmã tenta explicar-lhe que a mãe já falecera há uns meses e que era impossível falar com ela ou vê-la. Ao ouvir isto, ele tem um ataque de nervos e de choro. Insulta-a. Com o coração apertado, a irmã decide ir falar com o pai e alerta-o para a situação. Porém, este recusa-se a aceitá-lo. Ela decide levar o irmão mais novo a uma consulta psiquiátrica para o ajudar nesta situação de delírio. Após a primeira análise, o psiquiatra decide falar em privado com a irmã dizendo-lhe que efetivamente o Manuel apresentava vários sintomas, revelando nos seus comportamentos alguns distúrbios mas que só após várias consultas é que seria possível diagnosticar algo tão sério. Ela aproveitou para o informar que começara a ouvir vozes abafadas e afirmava que eram da sua mãe. Com o passar do tempo começara a ter visões, chegando ao ponto de manter conversas contínuas e duradouras com ela. Vários dias depois, e depois de muitas consultas, o psiquiatra suspeita de uma perturbação grave e pediu à irmã para que o levasse para ser internado no estabelecimento psiquiátrico. Após alguns meses, o seu pai ao saber do estado de saúde do seu filho, embriagado, tem um acidente de carro, acabando por falecer a caminho do Hospital. O Manuel quando recebe a notícia sofre um grave choque, piorando o seu estado de saúde. Passado um ano e meio do internamento, Manuel começa a recuperar a vontade de viver, deixando de ouvir as vozes e de ter visões.

Os médicos decidiram dar-lhe alta caso a sua irmã se responsabilizasse pela continuidade do seu tratamento, incluindo levá-lo às consultas semanais e seguindo rigorosamente a medicação prescrita. O Manuel, com a ajuda de todos e, pouco a pouco, com a sua força recuperada, começou a vislumbrar uma vida mais estável e já com momentos de tranquilidade e alguma alegria verdadeira.

Autores: Céline Martins, nº 14; Liliana Queiroz, nº 18 e Mário Fernandes,  nº 21

Turma: PTAS 3

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